domingo, 12 de novembro de 2017

[RESENHA] LOCANDA DELLE FATE - TEATRO MUNICIPAL DE NITERÓI - 10/11/2017

 
Foto: Carlos Vaz



Difícil será dissociar a razão da emoção quanto a experiência vivida na última sexta-feira que, como um vivo e luzente cometa, passou pelas duas mais importantes cidades do estado do Rio de Janeiro. Foram apresentações que ficarão marcadas não somente pela experiência de poder ver ao vivo a uma das maiores bandas de Rock Progressivo italiano, mas também pela beleza de todo o espetáculo. Não pude comparecer ao show ocorrido no Rio mas possivelmente, boa parte do que irei relatar aqui foi também presenciado no Espaço das Artes e certamente com a mesma intensidade. 

Meu primeiro contato com os italianos do Locanda foi logo na passagem de som a qual tive a honra de presenciar. Os simpáticos músicos ali na minha frente testando os instrumentos, regulando os volumes para a perfeita equalização do teatro e ressonando parte das belas introduções instrumentais. Passado alguns minutos, entra Leonardo Sasso, já com uma certa idade e mesmo com suas visíveis limitações, ainda consegue manter com firmeza sua gama vocal na forte timbragem de um tenor. Sentado em um pequeno banco, começa a entoar as primeiras estrofes de 'Forse Le Lucciole Non Si Amano Più', faixa que dá nome ao disco que seria a evidência principal daquela noite. 
Naquele momento, senti um frio na espinha por toda a intensidade e energia a qual a banda acertava os últimos detalhes para dar início as comemorações dos 40 anos do lançamento do disco em questão, já com gostinho de sua inevitável despedida dos palcos.

O show seu teve início logo nos primeiros minutos das 8 da noite com o teatro abarrotado de gente. Apesar de pequeno, com pouco mais de 350 assentos, tive uma visão privilegiada na parte superior onde pude avistar o palco com a maior clareza de detalhes possível. O público presente se mesclava entre jovens senhores, muitos deles acompanhados de seus filhos e familiares, renomados músicos cariocas e um número expressivo de mulheres que também marcaram presença. Isso afasta ainda mais o estigma de que o progressivo é um gênero apreciado somente pelos homens. 
O teatro que no seu interior possui um estilo barroco, mais rústico, com as típicas cadeiras de palha indiana, lembrando os teatros das centenárias cidades históricas mineiras. Contém uma estrutura bastante moderna em termos de acústica e som, com gerenciamento e produção feita por profissionais muito bem preparados para receber uma apresentação daquele porte.

A abertura ficou por conta da faixa instrumental, 'A Volte Un Istante Di Quiete' que, em tradução livre significa 'Às vezes, um momento de silêncio', que de calmaria não tem absolutamente nada. Vemos uma melodia de características sinfônicas muito bem elaboradas em arranjos complexos e  impecáveis, contando com lindas passagens de piano e sintetizadores, entrelaçados a envolventes solos de guitarra. A flauta se encaixa a uma instrumentação que quebra um pouco da intensidade, estabelecendo assim uma certa quietação entre os momentos mais turbulentos e expressivos da música.

Vale deixar claro que, apesar do Locanda sempre ter contado com dois tecladistas distintos, incluindo dois Hammonds e uma vasta criatividade quando se trata do uso arrojado de sintetizadores (Mini e PolyMoog,), a espinha dorsal de toda essa estrutura se enfatiza na perfeita execução de um Grand Piano, que serviu como base para a grande maioria das composições da banda ao longo dos tempos. 
Foto: Carlos Vaz
Porém, nos últimos anos com exceção ao Mini Moog, os músicos vêm optando pela praticidade dos engenhosos e fiéis simuladores, criados por renomadas empresas do ramo das teclas. O uso da flauta transversal também não se faz mais presente nas apresentações ao vivo, sendo esta também substituída com muita precisão de detalhes por um simulador. 
Os sábios mestres que manipulam esses instrumentos de forma muitas vezes simultânea são os músicos Maurizio Muha e Oscar Mazzoglio, sendo este último um dos fundadores da banda e principal responsável pela total execução das flautas, Cravo e Clavinet. 
Muha destila toda sua genialidade com habilidade em conduzir o  Grand Piano e piano elétrico. A harmonia entre os dois gera uma interação a qual eu nunca vi no progressivo por tamanha beleza, cuidado extremo nos pequenos detalhes, destilando técnicas impecáveis e destreza com instrumentos de extrema complexidade, que exigem do músico uma seleção minuciosa dos timbres a serem trabalhados para que soem com notável fidelidade na execução final. 

A faixa título e uma das mais longas, também se inicia com uma introdução de piano incrivelmente linda, que liga imediatamente a uma passagem vocal de Leonardo Sasso, revelando ali uma energia e sensibilidade com sua gama incomum, mas quando tudo parece suave demais, entra a incrível progressão a bateria do brilhante Giorgio Galdino, também membro fundador e a guitarra do virtuoso Massimo Brignolon anunciando ali a quebra de estrutura e dando segmento a segunda parte da música por assim dizer. Sem modificar a atmosfera inicial, os instrumentos são adicionados a uma espécie de dança de sons e contrapontos de certo peso em várias passagens, fazendo com que todas as estruturas aparecessem em absoluta clareza e harmonia.
Foto: Carlos Vaz

'Profumo Di Colla Bianca' foi um dos pontos altos de todo o show. De pura leveza, com um timbre de Hammond mais sintetizado na introdução, o Rickenbacker de Boero afiado como nunca, com bateria envolvente e um piano magistral sobrepondo a base do Hammond. O esplêndido vocal de Sasso como sempre se sobressai em meio aos muito bem arranjados solos de flauta, guitarra e Polymoog. 

Quebrando a sequência original do disco de 77, vem a belíssima 'Sogno Di Estunno', que começa com uma introdução bem bucólica baseada em flauta e teclados, mas logo se transforma em uma forte faixa vocal com Sasso, proporcionando uma performance de arrepiar.

Entre uma música e outra tínhamos sempre um show a parte quando o excelente baixista e membro essencial da banda, Luciano Boero interagia com o público. Tentava com muito boa vontade entoar algumas palavras em português que acabavam se misturando ao inglês e ao italiano em uma miscelânea de línguas que, no fim das contas, era compreendida pela maioria dos presentes. Ele tentava anunciar as faixas que seriam apresentadas no decorrer do show que além da execução da íntegra do disco 'Forse Le Lucciole Non Si Amano Più', que acabou não seguindo a sequência exata no decorrer do show, o que não foi problema. Seriam apresentados ainda, os trabalhos mais recentes lançados entre o fim dos anos 90 quando a banda se reuniu novamente, até os dias atuais com faixas ainda não lançadas oficialmente.

 'Non Chiudere a Chiave le Stelle', é um lindo interlúdio acústico que se tornou parte fundamental da apresentação onde, Luciano Boero troca o imponente Rickenbacker por uma violão. A linha de conexão estabelecida por Boero e Sasso é algo raro no progressivo. É visível o entrosamento entre os dois músicos não somente pelo desenvolvimento de toda sua musicalidade mas também pela forte amizade mantida nos decorrer de mais de 40 anos. Isso transparece nitidamente em vários momentos do show.

'Mediterraneo' segue a linha mais atual da banda, com clássicas execuções de piano mescladas ao poderoso vocal de Sasso. Instrumentos como acordeon simulados e modernos timbres de sintetizadores também se fazem presentes nos teclados do genial Oscar Mazzoglio. Música lançada esse ano que consta apenas em vídeo no canal oficial do Youtube, juntamente com a faixa que dá seguimento ao show, 'Lettera di un Viaggiatore'.

Voltando a maravilhosa obra de 77 vem uma de minhas favoritas, 'Cercando Un Nuovo Confine'. Também acústica, com tenros vocais e um maravilhoso piano. Essa foi das que certamente pagou o ingresso.
Foto: Carlos Vaz
 
Na sequência, a banda emenda três faixas, 'Crescendo', a curta porém belíssima 'Sequenza Circolare', finalizando com 'La Giostra'. Todas extraídas de uma coletânea gravada nos anos 70, mas que só foram lançadas no disco " The Missing Fireflies" de 2012, mesclando gravações ao vivo e em estúdio.

Chegando ao final da apresentação, a banda apresenta a faixa homônima do disco 'Homos Homini Lupus', lançado em 99. Após anos de silêncio, a banda retorna aos estúdios com uma nova formação para as gravações de um novo álbum ao qual nem chega ao pés daquela maravilhosa obra que lançou o Locanda para o mundo.

No fechar das cortinas vem a belíssima, 'Vendesi Saggezza' que vem para fechar de forma magistral aquela espécie de sonho que tivemos a honra presenciar naquela noite. Intensa, pesada, obscura, densa e maravilhosamente executada. Todos os instrumentos, sem exceção se interagem em um nível de extrema complexidade sem perder a sutileza e sensatez quando entra o belo vocal de Leonardo Sasso. 
Aquele certamente foi um momento de êxtase misturado a uma tristeza em saber que estávamos a poucos minutos do encerramento de um concerto que, ao meu ver foi o mais intenso e emocionante de todos do gênero progressivo aos quais pude presenciar ao longo dos anos.
O Brasil mesmo com todos seus típicos problemas, é um país acolhedor. Era nítido que a banda estava visivelmente emocionada no fim da apresentação.

O motivo de tristeza e da ressaca moral que bateu no dia seguinte se deve também ao fato da banda Loccanda Delle Fate ter surgido em uma época em que os principais nomes do progressivo italiano tais como Banco, PFM e Le Orme já começavam a perder sua identidade própria e a maioria das outras excelentes bandas simplesmente desapareceram depois de gravar um ou dois álbuns. Naquele momento, o progressivo italiano se encontrava em nítida decadência e o Locanda surgiu do nada, lançando um trabalho que marcou e ainda marca o gênero progressivo como um todo.

Finalizando, deixo aqui alguns fundamentais agradecimentos que fizeram da noite do dia 10 de novembro ser ainda mais especial. 
Primeiramente a Vértice Cultural e LOBD Associado, leia-se Cláudio Paula e Luiz Octávio Drummond que tornaram possível a vinda da banda mesmo com todos os problemas, perrengues e gente chata. A vocês deixo o meu respeito e um sincero agradecimento por tudo. Desde a hora em que cheguei ao teatro para literalmente 'bicar' a passagem de som até sermos literalmente expulsos do simpático pátio do teatro, horas após o término do show.
Que vocês continuem com fôlego para trazer ainda mais bandas nacionais e internacionais. Público vocês já tiveram a prova de que existe, basta saber executar. Coisa que vocês já são mestres. Que os próximos anos sejam de muito sucesso, sabedoria e paciência para lidar com os percalços.

Aos amigos, Carlos Vaz e Jorge Carvalho que tiveram uma paciência incrível com esta que vos fala por importunar com pedidos quase utópicos. A todos os amigos aos quais pude rever e outros que pude finalmente conhecer naquela noite. Essa resenha pós-show certamente foi um dos pontos altos de toda minha rápida passagem por terras cariocas. Sempre que vou ao Rio sou recebida de uma forma muito calorosa e bastante acolhedora.

A Sônia Aun e Rafael Aun por terem proporcionado toda a parte burocrática que envolve a complicada logística de sair de Belo Horizonte para assistir a um show em Niterói.

Finalmente, agradeço a todos simpáticos e muito solícitos membros da banda pelo belo espetáculo e por receber com toda a paciência do mundo cada uma das centenas de pessoas que os abordaram ao fim do show. 

Certamente este show foi um dos momentos de maior emoção a qual pude presenciar em toda minha vida.

Aos cariocas, deixo aqui meu singelo agradecimento.



Segue o primeiro vídeo do show no Rio, já compartilhado pelo amigo e confrade Lucas Scarassia pelo canal Musical Box Records.



Em breve serão postados nessa mesma publicação as fotos e os vídeos oficiais da passagem do Locanda Delle Fate por Niterói.

4 comentários:

  1. No momento não posso ver os vídeos, mas com certeza verei! Obrigado por compartilhar!

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  2. Descrição excelente para um show épico, emocionante ao extremo...obrigado por dividir toda essa emoção com os leitores.
    Abraços!

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  3. Nós, Rafael e Sônia Aun é que agradecemos a companhia, amizade e gratidão com que você, Luciana, nos recebeu e o "tour" entre "novos" interessantíssimos amigos, impressionados com os contatos que você possui neste mundo maravilhoso do Progressivo, e, principalmente, de ter conhecido (tietado e tirado fotos) a banda, com seus simpaticíssimos componentes. Pode ter certeza que foi uma experiência única de uma vida e que nunca mais vamos esquecer. Do fundo do nosso coração um grande MUITO OBRIGADO, IRMÃZINHA.

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